Chanceler desvenda recuperação da diplomacia: dívidas e falta de qualificação prejudicavam bolivianos no exterior.

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Em entrevista exclusiva, chanceler detalha desinstitucionalização deixada pela gestão Arce, cita dívida de US$ 1,5 mi e anuncia revisão profunda, agenda com Brasil em março inclui gasodutos e corredores bioceânicos.

São Paulo • 05/02/26 às 15:18h
Atualizado • 05/02/26 às 15:42h

Em entrevista contundente ao programa “Aquí En Vivo”, do canal Bolivision, o chanceler Fernando Aramayo descreveu um cenário alarmante herdado no Ministério das Relações Exteriores da gestão anterior. Concedida à jornalista Myriam Claros e publicada em 4 de fevereiro de 2026, a conversa revela uma pasta com dívidas significativas, servidores sem o perfil adequado e uma estrutura disfuncional que, segundo suas palavras, comprometia seriamente o atendimento aos cidadãos no exterior. Essas revelações trazem agora um contexto claro para os graves problemas de gestão e a péssima qualidade de serviço historicamente denunciados no consulado da Bolívia em São Paulo.

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“Recebemos uma chancelaria com dívidas. Uma chancelaria que não podia representar o país em diferentes espaços multilaterais. Com dívidas de salários ao serviço exterior, 1,5 milhão de dólares em dívidas”, denunciou Aramayo. Ele acrescentou que a situação se refletia na má condição de veículos e em débitos com fornecedores.

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“Recebemos uma chancelaria com dívidas… veículos em péssimas condições”. A afirmação do chanceler Aramayo encontra prova material no estado da van do Consulado em São Paulo, símbolo do abandono herdado.

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O problema, no entanto, vai além das finanças. O chanceler apontou um grave despreparo funcional. Funcionários buscando atornillarse nos cargos públicos, seja em embaixadas ou consulados. Uma revisão de perfis profissionais dá como resultado que muito poucos no serviço exterior cumpriam o perfil. Não são funcionários de carreira, não cumprem os critérios de meritocracia, afirmou.

Como exemplo da distorção, citou “unidades superdimensionadas”, como uma área administrativa com mais de 50 funcionários, e funções “intuitivamente ilógicas”, a exemplo de um “responsável pelo selo de certificados de trabalho”. Essa estrutura deficiente, segundo ele, impactava diretamente a qualidade do serviço. “A chancelaria estava em um processo de desinstitucionalização muito forte”, resumiu.

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Reforma sem “circo romano”, mas com responsabilização

Questionado sobre a troca de embaixadores, Aramayo foi enfático ao negar que a reforma seja um espetáculo de “circo romano” para “entregar cabeças”. “Aqui não viemos entregar sangue a ninguém. Há desligamentos, mas feitos no marco da norma”, disse, criticando a especulação na mídia sobre nomes.

No entanto, ele garantiu que a responsabilização está em curso. “Obviamente desvinculamos quem não cumpriu com os padrões, critérios, metas e avaliações. Em muitos casos, quem se enchia a boca falando contra os Estados Unidos, por exemplo, terminou solicitando vistos de residência, aproveitando seu status diplomático. Mas vão prestar contas”, prometeu.

O foco, afirmou, é construir um serviço exterior profissional. “Os perfis de embaixador, cônsul, vice-cônsul têm que ser respeitosos a esse tipo de perfil. Queremos um perfil que posicione a Bolivia nos espaços da geopolítica”, declarou, anunciando um processo de capacitação para funções consulares.

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Agilização digital e redesignação de consulados

Aramayo destacou a inovação digital como prioridade, celebrando a recente assinatura digital de decretos pelo presidente Rodrigo Paz. “Isso devia ser uma obviedade. Em pleno século XXI, nós nos escandalizamos porque há assinatura digital de um decreto”, ironizou.

Para otimizar recursos e melhorar a assistência, a chancelaria está redesenhar a rede consular. “Precisamente pelo afastamento de parte do serviço exterior, começamos a gerar concorrências. Ou seja, o consulado de uma cidade atende a outra para poder atender nossos connacionais”, explicou. A estratégia levará em conta a intensidade das relações e a presença de bolivianos.

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Brasil na mira: agenda ampla em março

O chanceler adiantou que uma visita oficial ao Brasil está agendada para março, com uma comitiva de empresários. Será realizada não apenas uma reunião bilateral entre os presidentes Paz e Lula, mas um gabinete ampliado entre os dois governos.

“A agenda é ampla: energia, gás, mineração, corredores bioceânicos, segurança transfronteriça, recursos hídricos, interesses comuns na Amazônia, inovações tecnológicas”, listou. Ele criticou o histórico recente de isolamento da Bolivia em projetos de integração. “Todas as infraestruturas quase estiveram sendo construídas na América Latina, evitando a Bolivia. Preferiram construir mais de 500, 700 km para conectar Brasil ao Peru, evitando 70 km na Bolivia. Agora não, vamos conseguir atravessar esses 70 km”.

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Mensagem final: “Recuperar a mística, pôr a Bolivia na moda”

Encerrando a entrevista, Aramayo fez um apelo por união e uma nova visão de país. “Este é um tempo em que temos que começar a recuperar a mística e a causa. Temos que construir uma visão juntos, que se traduza em algo simples: que todos queiram vir à Bolivia”, disse.

“Até pouco tempo atrás, todos queriam sair da Bolivia. Nossas juventudes queriam ir embora para trabalhar e estudar. Precisamos que queiram voltar para investir, estudar, se aposentar. Há que pôr a Bolivia na moda de novo”, proclamou. “Há que levar a Bolivia ao mundo e trazer o mundo à Bolivia. O presidente Paz sempre o diz: vêm tempos melhores, mas são tempos em que precisamos botar o ombro, todos”.

Para mais detalhes, assista à entrevista na íntegra concedida pelo chanceler Fernando Aramayo:
youtube.com/watch?v=asODKeRCee0
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