Acolhimento com Dignidade: Mensagem ao Prefeito Ricardo Nunes

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Coordenador do CAMI alerta sobre risco de desmonte de política pública única em São Paulo e apela à sensibilidade do poder público, lembrando que até o pai do prefeito foi imigrante.

São Paulo • 20/12/25 às 22:08h

Em entrevista por telefone ao portal Bolívia Cultural na última sexta-feira (20), véspera de um Natal de incerteza, Roque Patussi, coordenador do Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI) e da Casa de Acolhida Especial para Famílias (CAEF) Ebenezer, traçou um panorama emocionado e crítico sobre a situação dos imigrantes e refugiados em São Paulo. Com a possível transferência dos residentes da Ebenezer para os novos hotéis sociais da prefeitura, Patussi destaca a extrema especificidade necessária no atendimento a essa população e o risco de se perder um modelo que é referência internacional.

Casa Ebenezer, gerida pelo CAMI, é reconhecida pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) como um modelo mundial de acolhimento. O segredo, segundo Patussi, está no olhar humanizado e individualizado. “Uma equipe multidisciplinar que olha para a pessoa do imigrante, do refugiado, como uma pessoa, primeiro, com direitos… a gente tem respeito pela roupa que usam, pela comida que querem comer, pela maneira de andar”, explicou. O serviço é personalizado com um “plano de vida” para cada um dos 157 residentes atuais, cobrindo desde documentação, acesso à saúde, escola, creche, até orientação para emprego.

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O grande alerta feito pelo coordenador é sobre a possível transferência dessas famílias para os “hotéis sociais”, que têm um modelo genérico, originalmente pensado para a população em situação de rua. Patussi argumenta que essa mudança seria profundamente nociva. “O imigrante tem necessidades específicas”, enfatizou. Ele lista a barreira do idioma, a complexidade da documentação, a elaboração de currículos e a busca por emprego como desafios que um brasileiro em situação de vulnerabilidade geralmente não enfrenta. A convivência forçada, sem mediação cultural e linguística, poderia gerar conflitos.

“Essa é uma das prevenções que a gente está tentando mostrar para a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADES): que esse público tem necessidades específicas… e não pode ser colocado junto com outros grupos que têm outras necessidades”, afirmou Patussi. A Casa Ebenezer é a única em São Paulo que acolhe famílias completas sem separar homens, mulheres e crianças, um modelo crucial para a preservação dos laços familiares e da dignidade. Foi para lá, por exemplo, que foram levados os imigrantes afegãos que passaram meses em condições precárias no Aeroporto Internacional de Guarulhos – SP.

Diante do risco de desmonte dessa política pública construída com a sociedade civil ao longo de anos, Patussi fez um apelo direto e simbólico ao prefeito Ricardo Nunes. “Eu começo passando uma mensagem para o prefeito Ricardo Nunes, dizendo para ele olhar para o pai dele. O pai dele é um imigrante português”. Roque pede que o prefeito olhe com a mesma sensibilidade que gostaria que tivessem tido com seu próprio pai para a situação atual.

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A proximidade do Natal torna a situação ainda mais angustiante. “É muito triste a gente ter que, justo na semana do Natal, ir lá, olhar para os imigrantes e pensar: como é que eu vou dar um Feliz Natal para eles?”, desabafou. A mudança forçada significaria arrancá-los de uma rede de proteção consolidada, com UBS que vai até a casa vacinar, escolas da região que já conhecem as crianças, para jogá-los novamente numa situação de instabilidade e sofrimento.

Além das 157 pessoas acolhidas, o fechamento da casa colocaria na rua 31 funcionários especializados. “São 31 famílias que serão demitidas e que vão perder aquele alicerce que sustenta a casa”, lamentou Patussi.

Por fim, o coordenador do CAMI lançou um alerta para a sociedade e para o ciclo eleitoral que se aproxima. “Como é que o tema da migração é tratado por esses candidatos?”. Ele convoca a união entre brasileiros e imigrantes para defender os direitos conquistados, lembrando que a sociedade brasileira é, em sua essência, fruto de migrações. A defesa do modelo da Casa Ebenezer, portanto, vai além da assistência social: é a defesa de um princípio civilizatório de que “migrar é um direito e não um delito”.

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