Tráfico de pessoas: a violência invisível que escolhe os mais vulneráveis

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Enquanto redes criminosas movimentam bilhões com exploração de crianças e adolescentes, ausência de políticas bilaterais e canais de denúncia fragilizam ainda mais famílias de imigrantes na rota Bolívia-Brasil

São Paulo, 23/03/26 às 20:30h
Atualizado, 25/03/26 às 12:51h

O tráfico de pessoas não escolhe suas vítimas por acaso. Pelo contrário, age com precisão cirúrgica sobre aqueles que já vivem à margem da sociedade. No centro desse alvo estão famílias em situação de pobreza, e entre elas, as de imigrantes ocupam um lugar especialmente vulnerável. A falta de documentação, o desconhecimento do idioma e dos próprios direitos, somados ao distanciamento da rede familiar, à fragilidade social e em muitos casos o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, criam o ambiente perfeito para a atuação de quadrilhas especializadas nesse tipo de crime.

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A fronteira entre o Brasil e a Bolívia possui uma extensão total de 3.423,2 quilômetros. É a maior fronteira terrestre do Brasil com outro país, abrangendo desde a região do Pantanal até a Floresta Amazônica, passando pelos estados do Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.


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A rota entre Bolívia e Brasil é uma das mais movimentadas na América do Sul, e também uma das mais exploradas por redes de tráfico de pessoas, especialmente de crianças e mulheres. Apesar da dimensão do problema, a cooperação entre os dois países para enfrentá-lo ainda é incipiente. Um episódio ocorrido durante as eleições presidenciais da Bolívia em 2025 ilustra bem essa omissão. Na ocasião, o candidato presidencial boliviano, Tuto Quiroga foi questionado publicamente, durante um encontro com a coletividade boliviana em São Paulo, pelo jornalista Antonio Andrade, do portal Bolívia Cultural, sobre quais seriam suas propostas para combater o tráfico de pessoas, sobretudo de crianças e mulheres, alem de penalizar o estupro de vulnerável com maior rigor na Bolívia, considerando o intenso fluxo migratório entre os dois países e a existência de redes de transporte clandestino que facilitam a circulação de menores.

A resposta do candidato, no entanto, foi o silêncio. Em vez de apresentar propostas, Quiroga limitou-se a tirar fotos com os presentes e concluir seu comício político em SP. O mais chocante, porém, veio em seguida: parte dos imigrantes bolivianos presentes no local consideraram que a pergunta havia sido feita em “momento inadequado”. A cena levantou uma questão que persiste até hoje: se um estadista não tem propostas para enfrentar o tráfico de crianças, como a comunidade boliviana, tanto no Brasil quanto na Bolívia, pode confiar a proteção de seus filhos às autoridades? E quando a própria sociedade trata o tema como tabu, o silêncio se torna cúmplice de um crime que continua a destruir famílias.

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A proteção consular é um direito fundamental do cidadão no exterior, sendo a eficiência dos canais de atendimento um termômetro crucial da capacidade do Estado em garantir a segurança e o bem-estar de seus nacionais. Contudo, a análise da estrutura disponível em território brasileiro revela uma preocupante fragilidade institucional, marcada pela ausência de padronização e pela deficiência em serviços essenciais. A disparidade no acolhimento oferecido por representações de diferentes países sul-americanos expõe não apenas uma lacuna operacional, mas a urgência de se repensar os mecanismos de acolhimento imediato para vítimas de violência, tráfico e sequestro.

A fragilidade institucional revela sua face mais grave quando o poder público se omite justamente onde a vida está em risco em situação delta vulnerabilidade. É o caso do Consulado da Bolívia em São Paulo, (que até o fechamento desta matéria em 24/03/26) não disponibiliza um telefone de emergência 24 horas, para acolher vítimas de violência. “Em situações de tráfico de pessoas ou sequestro, cada minuto perdido pode ser a diferença entre a proteção e o abandono”. Enquanto isso, consulados de países vizinhos com volume expressivo de migrantes, como Peru, Colômbia, Equador, Chile e Argentina já oferecem atendimento ininterrupto a seus cidadãos. O descaso, aqui, não é apenas burocrático, é uma violação silenciosa que expõe os mais vulneráveis à própria sorte.
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Canais de denúncia

Se você tem informações sobre uma criança ou adolescente vítima de tráfico ou em situação de risco, denuncie! Ligue para os telefones de emergência:

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🇧🇴 Consulado da Bolívia – SP
(Não possui telefone de emergência)

🇧🇴 Consulado da Bolívia – RJ
(24h para denúncias)
+55 11 21 97964-6740
🇵🇪 Consulado do Peru -SP
(24h para emergências)
+55 11 94716-4747
🇦🇷 Consulado da Argentina -SP
(24h para emergências)
+55 11 99604-1561
🇨🇴 Consulado da Colômbia – SP
(24h para emergências)
+55 11 98966-7312
🇪🇨 Consulado do Equador – SP
(24h para emergências)
+55 11 2768 -7828
🇨🇱 Consulado do Chile – SP
(24h para emergências)
+55 11 3286-7609
🇧🇷 Disque 100
Direitos Humanos
(24h para emergências)
🇧🇷 Disque 180
Central de Atendimento à Mulher
(24h para emergências)

*As Leis nº 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação) e nº 13.460/2017 garantem ao cidadão o direito de acessar informações públicas e determinam que órgãos públicos disponibilizem Ouvidorias e canais claros de contato e emergência, como telefones e e-mails, devendo essas informações estar visíveis em sites (no “Fale Conosco”), e também em ambientes físicos, por meio de cartazes ou murais de atendimento ao cliente.

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Proteger crianças não é responsabilidade de apenas uma pessoa. É de todos nós.


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Uma realidade que não pode ser calada

A pauta ganhou força recentemente com a exibição de uma matéria especial do SBT Repórter, em março de 2026, que expôs a crueldade e a sofisticação das redes de tráfico infantil. A reportagem trouxe à tona uma verdade incômoda: em algum lugar do mundo, neste exato momento, uma criança está sendo levada contra a própria vontade.

 

 

“Já pega a criança, já passa para outra, um já troca a roupa da criança, o outro raspa o cabelo da criança, a coisa é muito rápida. Ela não entende o que está acontecendo, não sabe para onde está indo, só sabe que algo está errado.”

O tráfico infantil, como mostrou a reportagem, começa com mentiras: promessas de trabalho, convites para viajar, falsas oportunidades, muitas vezes veiculadas pela internet, por meio de perfis que fingem amizade. As vítimas, em sua maioria, não se reconhecem como tais.

Os números são estarrecedores. Segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, quase 24 mil crianças desapareceram no Brasil somente no ano passado, uma média de 66 casos por dia, representando um aumento de 8% em relação ao ano anterior. Por trás desses números, há uma rede criminosa altamente articulada, composta por falsificadores, intermediários e aliciadores que se aproveitam da vulnerabilidade das famílias mais pobres para transformar vidas em mercadoria.


O lucro por trás da dor

Segundo o Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas da ONU, a cada quatro vítimas traficadas, três não chegam a cruzar fronteiras, permanecem no próprio país. O crime, no entanto, é de difícil comprovação. “Não existe muitas vezes denúncia, não existe informação de como ele acontece. E as vítimas muitas vezes não se enxergam como vítimas”, aponta a reportagem. “A maior dificuldade hoje, como Brasil, é a gente informar as pessoas sobre o que é o crime. Então ainda há uma percepção de que esse é um crime que não existe. Mas infelizmente é um crime que existe, é real.”

O tráfico de crianças, porém, é apenas o meio. O fim raramente é feliz. De acordo com a ONU, as vítimas são destinadas a adoções ilegais, casamentos forçados, tráfico de órgãos, trabalho infantil e exploração sexual. Histórias interrompidas, infâncias roubadas.

Para a diretora da Dexodos Road Brasil, instituição que atua em parceria com autoridades na investigação de esquemas ilícitos, o perfil das vítimas segue um padrão alarmante. “Um quarto são crianças no mundo para a finalidade de exploração sexual, 60% são meninas. Nós teríamos hoje no mundo cerca de 30 milhões de pessoas que foram sequestradas, cooptadas pelo tráfico de seres humanos. Desses 30 milhões, 10 milhões seriam crianças de 0 a 17 anos. E desses 10 milhões, 2 milhões seriam únicos exclusivamente para pedofilia.”

A especialista acrescenta: “Uma criança custa hoje 120 mil dólares sem nenhum tipo de exigência.”


A internet como palco do aliciamento

O anonimato na internet criou um novo cenário para o tráfico de pessoas. As redes sociais tornaram-se o principal canal de aliciamento. “O tráfico humano aumentou por conta dessa rede de pedofilia pela internet hoje? Podemos. Porque o aliciamento hoje, em sua grande maioria entre crianças, adolescentes e adultos, acontece na palma da mão. É pela internet.”

Enquanto muitos associam a atividade ilícita mais lucrativa ao tráfico de drogas, especialistas apontam outro caminho. “Eu digo para você que não. É o tráfico de seres humanos. Enquanto você vende uma porção de droga uma única vez, você vende uma criança por pedofilia dez vezes num dia.”

As consequências para as vítimas são devastadoras e duradouras. “É muito triste porque as vítimas, quando elas são exploradas, primeiro elas normalizam a exploração. Elas passam a se sentir culpadas, se sentiam responsáveis por conseguir dinheiro explorando o próprio corpo. Você tira a infância de várias crianças.”

Na infância, explicam os especialistas, desenvolvemos os principais repertórios que moldam nossa personalidade e nossa forma de estar no mundo. “Se no momento da infância você está tendo acesso só a violências ou a negligência ou a situações de muita escassez de recursos, no sentido de falta de afeto também, isso é uma questão. Você vai aprendendo, vai consolidando em você de que aquilo é a vida.”

No caso de crianças que sofreram abuso sexual, o trauma se estende à relação com o próprio corpo e com as relações afetivas futuras. “A gente precisa ter educação para essas crianças, nós precisamos educar esses pais, nós precisamos vigiar as redes de internet, nós precisamos informar.”


Corrupção e impunidade

Um dos maiores obstáculos no combate ao tráfico de pessoas é a corrupção. “Muito da dificuldade vem que o crime é muito atrelado à corrupção, ele é atrelado a redes muito poderosas, então é um crime que não interessa muito de ser combatido e investigado.”

A responsabilização, no entanto, deve alcançar todos os elos da corrente criminosa. “Todo mundo que participa aqui, quem acolhe, quem transporta, todo mundo que faz parte desse movimento, está cometendo crimes de tráfico de pessoas.” Mesmo pais que entregam filhos mediante pagamento são passíveis de indiciamento. “Eles vão ser indiciados, tal como a pessoa, todo mundo que fez parte desse fluxo do tráfico, desde o aliciamento, até o transporte, acolhimento, até a derradeira exploração, qualquer pessoa que participou desse processo, ela vai responder pelo crime de tráfico de pessoas e pelos seus crimes conexos, porque o tráfico de pessoas nunca acontece sozinho.”

 

 

Tráfico internacional e o mercado da adoção ilegal

A França é o segundo país que mais adota crianças brasileiras. Com população menor e baixa taxa de natalidade, faltam bebês disponíveis para adoção por lá, uma escassez que alimenta um mercado internacional que muitas vezes ignora leis e destrói famílias.

O fenômeno ganhou as telas de cinema com o filme “Som da Liberdade”, baseado em fatos reais. A obra conta a história de um ex-agente federal norte-americano que, após prender criminosos envolvidos com pornografia infantil, passa a se dedicar ao resgate de vítimas de redes internacionais de tráfico.


O drama no Nepal e a esperança que resiste

No sul da Ásia, entre as montanhas do Himalaia, o Nepal vive realidade semelhante. Com uma população extremamente pobre, o país é alvo fácil para redes criminosas que negociam meninas. A estimativa é que cerca de 12 mil nepalesas sejam traficadas todos os anos para a Índia.

“Eles vêm aqui nas vilas do Nepal e pegam as meninas novas, 11, 12, 13 anos, e levam iludidas muitas delas para trabalhar. Tipo assim, ah, vamos lá, você vai trabalhar num restaurante, lavando o prato, mas é um lugar de prostituição.”

O relato de uma adolescente resgatada é estarrecedor: aos 14, 15 anos, era obrigada a ter 30 relações sexuais por dia. No final do dia, recebia apenas um pó para fazer uma sopa. “Essa menina foi resgatada. Quando ela fala, ela fala com gratidão o que foi feito pela vida dela, porque ela viu inúmeras meninas morrerem de doenças, porque não há prevenção, não há cuidado, absolutamente nada.”

Diante de tanta crueldade, ainda há esperança. E ela começa com um ato simples, mas urgente: denunciar.

A dor de uma família que perde um filho para o tráfico é perpétua. “Porque se você sabe que morreu, você fala, morreu, enterrou, você viu e tal. Agora, você não pode imaginar o que é o desespero de uma mãe que fica todo dia achando que o filho ou a filha vai entrar pela porta de casa.”

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O tempo é fator crítico. “É de fundamental importância que a investigação se inicie rapidamente. Em até três horas, a chance de você conseguir localizar aquela criança é muito grande. Isso é mito, não tem que esperar 24 horas, você tem que ir e exigir que seja iniciada a investigação o mais rápido possível.”


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