A arte que ultrapassa fronteiras: Edson Burgos e a força da dança na São Paulo diversa

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Natural da Bolívia, o artista multifacético construiu uma trajetória de mais de duas décadas na capital paulista, unindo memórias de dois países

São Paulo, 21/03/26 às 00:18h
Atualizado, 24/03/26 às 01:44h

Edson Burgos é um artista que carrega no corpo duas pátrias e uma só linguagem: a dança. Nascido em Camiri, cidade boliviana localizada na província de Cordillera, no departamento de Santa Cruz, ele trouxe no sangue a cadência da terra natal e, no coração, os primeiros passos dados sob o olhar atento da família.

Foram os pais, José Burgos Bonilla e Patricia Athena Uzqueda de Burgos, os grandes alicerces de sua trajetória. Como um farol constante, guiaram cada decisão e apoiaram cada sonho, ensinando-lhe desde cedo que a arte nasce do chão firme e do amor incondicional. Foi nesse solo de segurança e estímulo que Edson floresceu, ainda menino, nos palcos dos eventos folclóricos da escola na Bolívia, descobrindo que seu lugar de expressão já estava traçado.

Aos 12 anos, o destino o trouxe ao Brasil. Deixar a terra natal foi um recomeço, mas a base construída pela família jamais se perdeu. Pelo contrário: sustentou cada desafio de um artista em construção em um país novo. Foram 25 anos vivendo em São Paulo até que, passo a passo, Edson transformou a dança em território próprio, unindo as duas culturas que habitam seu corpo em uma só linguagem.

Hoje, ele é um dos nomes mais expressivos da dança contemporânea na cidade, à frente da Rumos Cia. Experimental de Dança e do Espaço Play, em Francisco Morato – SP. Sua trajetória é prova viva de que, quando a família é alicerce, a arte pode atravessar fronteiras, reconstruir origens e conquistar novos horizontes sem jamais perder a raiz.

 

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1- Roda de conversa pós espetáculo “.NOUS” junto a Rumos Cia Experimental de Dança. (foto – Robson Gonzaga)

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Desde criança, na Bolívia, Edson já brilhava nos eventos folclóricos da escola. Seu talento nos palcos era destaque desde cedo. (fotos: Acervo pessoal)

“Eu nasci em Camiri, uma cidade bela da Bolívia. Aos 12 anos, vim para São Paulo. Na verdade, já havia estado aqui antes, mas era sempre um bate e volta. Para ficar de vez e fixar residência, foi no ano 2000. Então estou aqui há 25 anos”, conta Edson, que mantém um vínculo profundo com o país de origem. “Vou para lá sempre, pelo menos uma vez por ano. Tenho uma ligação muito forte com a nossa cultura. Aqui em São Paulo, frequento todos os lugares bolivianos que vendam comida tradicional da minha terra, ali no Bresser, na praça Kantuta. Estou sempre me conectando.”

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Espetáculo “.NOUS” no Centro de Referencia da Dança – 2023. (foto – Robson Gonzaga)

 

Sua formação artística começou ainda na Bolívia, em apresentações escolares nas datas comemorativas do calendário cultural do país. “Eu sempre participava dos atos cívicos na escola. Todas as datas comemorativas tinham apresentações, e eu estava envolvido em todas elas: poesia, cena teatral, dança, danças típicas.” Ao chegar em São Paulo, esse repertório encontrou novos horizontes. “Comecei a estudar danças mais acadêmicas: balé, jazz, dança contemporânea. Fiz uma formação profissional com meu perfil exponencial na cidade.”

A trajetória de Edson é marcada por uma atuação que vai além da criação artística. Ele integrou companhias como Sopro e Raça antes de fundar, em 2011, a Rumos Cia. Experimental de Dança. Paralelamente, criou o Espaço Play em Francisco Morato, na Grande São Paulo, que começou como um local para compartilhar conhecimento e hoje se consolidou como um ponto de cultura na região. “Na pandemia, o espaço virou, para além de um espaço de aulas, um espaço cultural que recebe coletivos. A gente faz eventos, apresentações. Virou um ponto de cultura na cidade.”

 

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Play Mostra de Dança 2025 , realizada em Francisco Morato. (foto – Vitor Porphirio)

 

Seu trabalho atual é o projeto “Amarras”, contemplado pela 38ª edição do Programa Municipal de Fomento à Dança da cidade de São Paulo. Com duração de 11 meses, o projeto envolve múltiplas ações, entre elas a circulação dos espetáculos “.NOUS” e “Ô Saudade…” em escolas da periferia. “A gente acabou de finalizar a circulação na região noroeste e agora vamos iniciar pela zona leste. A ideia é transformar o pátio do colégio em um palco, levar a arte para dentro das escolas.”

 

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Espetáculo de Final de ano da Play Espaço Cultural – ” Feche os olhos para ver” – Dezembro de 2025. (foto – Leonor Hills)

 

“Ô Saudade…”, criado em 2015, aborda a migração nordestina. “.NOUS”, por sua vez, convida o público a olhar para o humano, vulnerabilidades, pressões internas e externas, medos e tentativas de equilíbrio. O projeto prevê ainda a criação de um novo espetáculo, com dramaturgia construída coletivamente ao longo do processo, em diálogo com artistas convidados.

Edson também se dedica intensamente à pesquisa sobre políticas públicas para a cultura. “Minha formação se dá aqui em São Paulo. Começo a entender essa questão das políticas públicas, escrever editais, me dedicar bastante a isso. Sempre defendi esse lugar de que os imigrantes têm esses direitos, que muitos artistas não sabem.”

 

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Espetáculo “.NOUS” no Centro de Referencia da Dança – 2023 – (foto: Robson Gonzaga)

 

A força da arte de Edson Burgos, que transita entre a memória boliviana, a dança contemporânea e as periferias de São Paulo, é também um testemunho do que a criação artística pode construir quando atravessa fronteiras, geográficas, sociais e simbólicas.

 

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Ficha técnica do projeto “Amarras”:

  • Direção: Edson Burgos
  • Produção: Tono Guimarães
  • Assistente de Produção: Gabriela Bertulino
  • Intérpretes-criadores: Vitor Porphirio, Renata Silvestre, Matheus Miller, Maria Clara Mirra, Edson Burgos e Thamiris Braun
  • Operação de luz: Rebeka Teixeira e Hernandes Oliveira
  • Mediação de público: Flávia Borsani e Nicole Jesus
  • Fotografia: Vando Show
  • Social Media: Amanda Jerônimo

 

Projeto contemplado pela 38ª edição do Programa Municipal de Fomento à Dança para a cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa.

 

Em 2018, Edson Burgos levou aos palcos “Kantuta – Uma Bolívia em São Paulo”, espetáculo que celebrou suas raízes na capital paulista.

 

Fotos: Divulgação
Leonor Hills

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