A Vergonha dos Vivos: Enquanto Vitimas Eram Socorridas, Uma Multidão Escolheu o Saque, Manchando a Alma da Bolívia Diante do Mundo

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Em meio aos destroços fumegantes de um avião militar que ceifou a vida de mais de 15 pessoas no altiplano boliviano, uma cena dantesca e se desenrolou.

São Paulo • 28/02/26 às 13:22h
Atualizado • 28/02/26 às 21:58h

 

Centenas de populares romperam o cordão de isolamento não para socorrer os feridos, mas para saquear o dinheiro espalhado entre os cadáveres, num ato de selvageria que isolou a Bolívia no cenário internacional como palco de uma tragédia onde a humanidade foi a primeira e mais valiosa carga a se perder.

Enquanto o cheiro de querosene ainda se misturava ao de corpos sem vida e o som das sirenes dos bombeiros e ambulâncias tentava, em vão, estabelecer um mínimo de ordem no caos, a verdadeira face da desumanidade se revelava nas sombras do Aeroporto de El Alto. No fim do dia da última sexta-feira, 27 de fevereiro, a queda de uma aeronave Hércules da Fuerza Aérea Boliviana (FAB), que transportava valores do Banco Central Boliviano, não produziu apenas vítimas fatais e dezenas de feridos. Produziu uma ferida muito mais profunda e duradoura na já frágil estrutura moral do país. Enquanto equipes de resgate arriscavam suas vidas em um “rastrillaje” minucioso em busca de sobreviventes entre os escombros, uma horda de populares, munida de pedras e movida pela mais sórdida das ambições, atacou militares e policiais, derrubou cercas de segurança e se lançou sobre os destroços como abutres sobre a carniça, disputando entre si maços de dinheiro que, ironicamente, as próprias autoridades se viram obrigadas a queimar.

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A imagem de bolivianos agredindo agentes de segurança e carregando dinheiro nos braços, enquanto, a poucos metros, corpos eram retirados das ferragens, correu o mundo em questão de minutos. O que se viu não foi apenas um ato de pilhagem; foi a exibição pública e vergonhosa do colapso dos valores mais básicos de uma sociedade que, aos olhos do planeta, trocou a empatia pela cobiça, transformando um cenário de dor e comoção nacional em um mercado sombrio macabro e sanguinário. A pergunta que ressoa dos escritórios da ONU em Nova York às redações dos jornais em Madrid e Buenos Aires é a mesma: que espécie de sociedade é capaz de, diante da morte e do sofrimento alheio, calcular o lucro em vez de oferecer o ombro?

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Para além da óbvia condenação legal, que já resultou na apreensão de pelo menos 12 pessoas, conforme confirmou o fiscal departamental de La Paz, Luis Carlos Torres, o episódio escancara uma ferida espiritual em uma nação historicamente reconhecida como uma das mais espirituosas e comunitárias das Américas. A Bolívia, coração vivo da cosmovisão andina, é o berço da filosofia do “suma qamaña” (em aymara) ou “vivir bien”, um princípio que transcende o mero bem-estar material para pregar uma existência harmoniosa e coletiva, onde todos os elementos da natureza, humanos, montanhas, rios e animais, são parte de uma comunidade viva e interconectada. É a terra da Pachamama, a Mãe Terra, a quem se oferecem presentes e se pede permissão antes de qualquer ação. É uma cultura que, por séculos, resistiu à colonização preservando o valor do “ayni”, a reciprocidade e a ajuda mútua, a compreensão de que a sobrevivência de um depende da sobrevivência de todos.

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O que leva, então, herdeiros dessa rica tradição a romper com esse pacto milenar de forma tão brutal? O saque esquecendo crianças feridas não é um fenômeno isolado, mas o sintoma mais agudo de uma degradação gradativa provocada pela erosão dos laços comunitários em favor de um individualismo predatório. A resposta para a quebra dessas regras fundamentais de vida reside na interseção perversa entre a pobreza extrema, a falta de perspectivas e a sedução de um dinheiro fácil que, na mente daqueles que atacaram os socorristas, representa a única tábua de salvação em um oceano de desespero. Quando o Estado falha em prover o básico, dignidade, trabalho, futuro, e quando a sociedade de consumo, exibida nas vitrines e na televisão, parece um sonho inalcançável para a maioria, o choque de um avião carregado de cédulas de dinheiro se torna uma macabra loteria. Por alguns minutos, o dinheiro perdeu sua abstração e se materializou como a promessa de fugir da miséria, ainda que sobre os corpos daqueles que também, talvez, sonhassem com um amanhã melhor.

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A Bolívia que acordou neste sábado não é a mesma. Ela carrega agora o peso de ter visto seus filhos, em praça pública e diante das câmeras de celulares, escolherem o papel-moeda em detrimento da solidariedade humana. O mundo assistiu, incrédulo, à degradação de um povo que, em sua essência, sempre ensinou que a riqueza maior é a vida em comunidade. A recuperação desta ferida não se fará apenas com a punição dos 12 apreendidos ou com a queima do dinheiro manchado de sangue e querosene. Exigirá um reencontro profundo e doloroso da sociedade boliviana consigo mesma, com seus valores ancestrais e com a dura pergunta que quebra os Andes:

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quando foi que nos esquecemos de que, numa comunidade viva, a morte de um é a derrota de todos?

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Um anojo em mio à tragédia

Um residente de El Alto prestou socorro aos tripulantes feridos após o acidente aéreo na cidade, uma atitude que contrasta com o saque de dinheiro por parte de muitas outras pessoas em meio à tragédia.

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