“Parem de Nos Matar”: Em São Paulo, um Grito Nacional Exige Fim da Epidemia de Feminicídio

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Manifestação “Mulheres Vivas” na Avenida Paulista denuncia falhas do Estado e violência crescente. Com registro atento, o Bolívia Cultural ilumina a face mais silenciada da tragédia: a extrema vulnerabilidade das mulheres imigrantes no Brasil.

São Paulo • 08/12/25 às 17:09h
Atualizado • 08/12/25 às 17:43h

A Avenida Paulista, neste domingo (7), não era apenas um cartão-postal, mas um palco de luto e luta. Sob o céu cinzento de São Paulo, milhares de mulheres desenharam um mosaico de cartazes, vozes roucas e olhares decididos. O grito, uníssono: “Parem de nos matar!”. A mobilização nacional “Mulheres Vivas” converteu a revolta em presença física, um protesto contra os mais de quatro feminicídios diários no país, um recorde histórico em 2024, com 1.492 vidas interrompidas pela violência de gênero.

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Entre a multidão, rostos de diferentes idades, cores e sotaques contavam histórias similares de medo e resistência. Natália Marinho, professora de educação infantil e mulher negra, segurava um cartaz com firmeza enquanto explicava, com a voz embargada pela emoção, que a violência tem cor e endereço: “Somos nós, as negras, as periféricas, as mais atingidas. E o Estado nos abandona duas vezes: pela omissão e pelo racismo”.

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Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública corroboram sua fala: 63,6% das vítimas de feminicídio no Brasil são negras, e 64,3% dos crimes acontecem dentro de casa, frequentemente nas mãos de companheiros ou ex-companheiros. No mundo, a Organização das Nações Unidas (ONU) revela um cenário igualmente brutal: a cada dez minutos, uma mulher é assassinada por um parceiro íntimo ou familiar.

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Mas além dos números, a manifestação destacou uma camada ainda mais invisibilizada da violência: a realidade das mulheres imigrantes. Presente no ato, a equipe do portal boliviano Bolívia Cultural percorreu a multidão com um olhar atento, registrando não apenas a revolta coletiva, mas a narrativa específica.

Em nota a advogada criminalista boliviana Patricia Vega, acompanhando a cobertura pelas redes sociais, descreveu com clareza angustiante o ciclo de terror em comunidades imigrantes em São Paulo. “A violência contra as mulheres bolivianas é constante, e o consumo de álcool, principalmente em festas de Fim de Ano Alasitas e Carnaval, funciona como um detonador. Quando essas datas se aproximam, minha apreensão cresce, porque sei que as notícias de feminicídios, espancamentos e agressões vão se repetir”, afirmou Vega, destacando o isolamento linguístico, cultural e jurídico que muitas enfrentam.

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Esse cenário é confirmado por Carla Aguiar, assistente social do Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), instituição histórica no suporte a imigrantes. “A violência persiste, e os números são ascendentes. São mulheres que, além de lidar com a ameaça dentro de casa, não conhecem seus direitos ou não confiam nas autoridades locais. A rede de proteção precisa ser urgentemente ampliada e acessível a todas”, constatou Aguiar.

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A manifestação também apontou o dedo para as raízes digitais da misoginia. Lívia La Gatto, atriz e uma das organizadoras do ato, lembrou o caso do influenciador Thiago Schutz, preso por agressão à namorada, cujo perfil no Instagram, com mais de 400 mil seguidores, banaliza o ódio contra as mulheres. “A misoginia nas redes é a semente da agressão física. Enquanto esse discurso circular impune, a violência será naturalizada”, defendeu La Gatto, exigindo a criminalização da prática e a responsabilização das plataformas.

Monica Gaspar dos Santos, conselheira da Marcha Mundial das Mulheres na periferia de Campinas, reforçou que, longe dos centros urbanos, a desproteção é ainda mais cruel. “Faltam delegacias especializadas 24 horas, abrigos suficientes e campanhas permanentes. Precisamos de orçamento garantido e políticas que não sejam apenas reativas, mas preventivas”.

Enquanto a tarde caía sobre a Paulista, as mulheres permaneciam firmes. O registro do Bolívia Cultural, mais do que uma cobertura, foi um ato de articulação – dando voz a quem, mesmo em movimento, muitas vezes permanece à sombra. O grito “Parem de nos matar” não era apenas um pedido de socorro, mas um lembrete de que, para acabar com a epidemia de feminicídios, é preciso enxergar todas as mulheres, incluindo aquelas que cruzam fronteiras em busca de dignidade e encontram, no caminho, novas formas de violência. A luta, como mostraram suas vozes, é uma só, mas suas feridas têm muitas geografias.

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