Debandada de brasileiros ao exterior atinge recorde no governo Bolsonaro

A diáspora cresceu quase 20% mesmo na era de fronteiras fechadas durante a pandemia

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Debandada de brasileiros ao exterior atinge recorde no governo Bolsonaro

Por Leonardo Lellis
27 set 2021, 14h54

Guerras e grandes desastres naturais estão entre os principais geradores na história de grandes fluxos de imigração. No caso do Brasil, que não enfrenta nenhuma dessas catástrofes (felizmente), mas sofre no momento com duas crises agudas (sanitária e econômica), o ceticismo com relação a um futuro melhor tem levado um número recorde de pessoas a tentar a vida no exterior. A onda que vinha crescendo desde 2015 ganhou maior velocidade nos últimos dois anos, mesmo com fronteiras fechadas por um bom tempo durante a pandemia. Segundo dados recentes do Ministério das Relações Exteriores, há 4,2 milhões de brasileiros vivendo longe do país, um aumento de quase 20% sobre o número de 2018. Isso é ainda mais impressionante quando se considera que o dado não computa com precisão quem saiu daqui e se encontra em situação ilegal lá fora. Estimativas falam em até 50% a mais de gente nessa condição, o que elevaria para acima de 6 milhões o volume da diáspora.

Debandada de brasileiros ao exterior atinge recorde no governo Bolsonaro

Além do patamar inédito, o perfil dessa debandada tem características novas, a começar pela mudança do perfil de parte considerável dos imigrantes. O desalento com o Brasil é amplo, geral e irrestrito e o aeroporto tem sido a única saída para quem busca qualidade de vida e carreiras mais atraentes. O presidente Jair Bolsonaro, que nunca disfarçou seu desapreço pela produção de conhecimento, conseguiu a façanha de acentuar o perfil de quem vai embora para oferecer a países desenvolvidos a excelência que faz falta aqui: é cada vez maior o número de famílias com integrantes com ao menos um diploma de ensino superior indo embora, sem intenção alguma de voltar. Entre 2019 e 2020, o Brasil caiu da 63ª para a septuagésima posição no quesito retenção de talentos em um ranking global de competitividade, elaborado pela instituição Insead. Uma verdadeira “fuga de cérebros”. “É um problema de falta de perspectiva”, afirma Vanessa Cepellos, professora de gestão de pessoas da FGV. “O salário aqui acaba sendo mais baixo e o custo de vida, muito alto. A conta não fecha e os profissionais acabam buscando outras oportunidades.”

Além do aumento de quase 20% entre 2018 e 2020 no número de brasileiros morando fora, os números estimados pelo Itamaraty revelam o surgimento de novos destinos de preferência. O aumento mais notável foi registrado na Irlanda, onde a comunidade brasileira mais que triplicou e, de uns anos para cá, tornou-se o lugar favorito de intercambistas atraídos por preços de cursos mais em conta do que no vizinho Reino Unido e por um visto que permite conciliar estudo e trabalho. Quem vai para o país também conta com oportunidades nas áreas de tecnologia, saúde ou finanças. “Tenho um padrão de vida aqui que não teria no Brasil”, afirma o executivo de marketing digital Matheus Teodoro, de 29 anos, que mora desde 2019 em Dublin com a esposa, também brasileira. A história é semelhante à do consultor em segurança da informação Deivid Luchi, 29, que chegou a prestar serviços para grandes bancos no Brasil trabalhando em Porto Alegre, mas trocou o país pela Austrália em busca de melhores oportunidades e hoje procura profissionais daqui para compor a equipe que lidera em Melbourne. “Os brasileiros são muito bem reconhecidos e valorizados internacionalmente”, diz.

A Austrália, aliás, investe pesado para atrair estrangeiros qualificados. O setor educacional chega a superar o volume de receitas geradas pelo turismo no país — 38,4 bilhões de dólares no último ano. O país concorre com potências como o Canadá, que conta com mais de sessenta programas governamentais para atrair mão de obra estrangeira. No caso australiano, uma das joias de sua política de imigração é o programa de visto para talentos globais, criado em 2019 para atrair profissionais altamente qualificados em suas áreas de atuação. Foi dessa forma que a química Adriana Pires Vieira, natural de São Luís, no Maranhão, partiu para o outro lado do mundo. Após o fim de seu contrato como pesquisadora na Universidade de São Paulo, em novembro de 2018, ela embarcou levando na bagagem um doutorado na Unicamp e um pós-doutorado na USP. Hoje mora em Perth, na costa ocidental da Austrália, onde pesquisa energia renovável e vive com o namorado, também pesquisador na Universidade Curtin. “O país que me formou não aproveitou o conhecimento que eu tinha a oferecer”, lamenta Adriana.

Debandada de brasileiros ao exterior atinge recorde no governo Bolsonaro

LEIA A MATÉRIA COMPLETA - VEJA DE 29 DE SETEMBRO DE 2021, edição nº 2757

fonte: veja.abril.com.br

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