Menino Jesús embala a saudade e a esperança do natal “chuquisaqueño” em São Paulo

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Em uma noite quente de dezembro, tradição boliviana tece o natal com música, pão e o doce balanço do “Chuntunqui” na Zona Leste de São Paulo.

São Paulo • 28/12/25 às 01:47h.

A cena parece deslocada no tempo. Num salão de eventos chamado Espaço Catumbi, na zona leste de São Paulo, o ar pesado de dezembro carrega o cheiro doce de pão fresco e o som vibrante de uma melodia que veio desde Sucre na Bolívia. Não é apenas mais uma celebração natalina. É a Festividad del Niño Jesús, costurada com a precisão e o amor de quem preserva um tesouro longe de casa. Perto do palco, um presépio ricamente ornamentado guarda a imagem do Menino Jesús dormindo. E é para Ele que casais se ajoelham, num gesto de reverência que antecede a alegria.

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Aqui, o Natal tem o ritmo do “Chuntunqui”, o zapateado alegre que marca a novena natalina no Departamento de Chuquisaca, no coração da Bolívia. Os pés que batem no chão da pista de dança não esquecem o solo de Sucre, capital histórica boliviana. As polleras (saias) que rodopiam e os trajes tradicionais contam uma história de resistência cultural. “Não é só dançar. É rezar com o corpo, é apresentar nossa devoção e nossa identidade ao Menino Deus”, explica Henrry Limachi, padrinho de local deste ano.

As paredes do salão, já quentes pelo abraço apertado do verão paulistano, ganham um novo revestimento: uma tapeçaria comestível de pães. Trançados com esmero, enfeitados com destreza, cada um pendurado com a reverência de quem oferece o fruto do trabalho.

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Mais que ornamentos, são símbolos vivos de gratidão e prosperidade, oferendas que costuram o sagrado ao terreno, o milagre ao pão de cada dia. À sombra dessa colheita suspensa, as crianças observam. Muitas delas, nascidas sob o céu quase sempre cinza de São Paulo, aprendem. E quando se lançam nas coreografias harmoniosas, seus pezinhos herdam o ritmo e a memória dos passos que seus avós dançaram a mais de três mil quilômetros dali.

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No ápice da cerimônia, há um momento de transição solene. Os pasantes 2025 Hugo e Nelcy passam o manto da responsabilidade para os novos guardiões da tradição: Severina Rejas Vedia e João Diego Silva Merino, os “recibientes” de 2026. O gesto é simples, mas profundo. É a garantia de que, no anoitecer do próximo Natal, os acordes do chuntunqui voltarão a ser a harmonia da festividade, e o Menino Jesús será novamente embalado pelos ritmos que atravessaram fronteiras.

O Natal chuquisaqueño não foi um evento simplesmente festivo. É um ato de fé arraigada e de identidade reinventada. É o jeito de dizer, ao Menino Jesús e à própria comunidade, que algumas sementes, mesmo plantadas em solo estrangeiro, florescem com a força e a cor do lugar de onde vieram. E seguem, firmes, abrindo caminho entre o cimento.

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