O Menino das Fotos: Uma história real bordada desde La Paz até o coração da Pauliceia

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Do frio cortante de La Paz ao brilho nos olhos de uma criança: a história de como um sonho infantil se tornou o maior projeto cultural boliviano na rede educativa paulistana. Conheça Antonio Andrade e o projeto que está moldando o futuro das novas gerações.

São Paulo – 29/12/25 às 17:12h
Atualizado – 30/12/25 às 21:53h

Lembro-me como se fosse ontem, ou como um sonho que se repete em cores vivas todas as noites. Eram os anos 80 em La Paz na Bolívia. O ar, fino e gelado, cortava os pulmões na Plaza San Francisco, onde o burburinho dos engraxates se misturava ao balé colorido das “cholitas” (mulheres andinas) em suas polleras (saias coloridas) e ao aroma tentador de “salteñas” de calda picante e “llauchas” repletas de queijo (iguarias tradicionais).

Eu era um menino de talvez sete ou oito anos, devidamente equipado para o frio e a agilidade exigidos pelas ruas íngremes da capital mais alta do mundo. Minhas irmãs, em sua sabedoria doméstica, tentavam me manter em casa escondendo um tênis de cada par. Mas seus artifícios falhavam contra minha determinação: eu saía com um pé de cada cor, os cadarços quase sempre soltos, um detalhe cuja razão se perdeu no tempo, mas que permanece na memória como um emblema de liberdade. Minhas roupas, sempre um ou dois números maiores, eram a prática economia de mi mami Rosa. “Você vai crescer”, dizia, enquanto remendava os buracos de minhas calças com retalhos de cores vibrantes e nada sutis, como uma bandeiras de resistência. Havia gente de bom coração que, ao me ver, queriam me dar roupas usadas. Eu recusava com um sorriso interno e um pensamento certeiro: “Se eu chegar em casa com roupa que não é minha, tô frito”, minha mãe era intransigente quando se tratava de aceitar presentes de desconhecidos. Mas aquela recusa não era apenas orgulho ou medo do castigo. Era porque eu sabia, no fundo, que aquelas calças remendadas com retalhos gritantes eram mais do que roupas: eram um artifício, uma âncora para me prender em casa. E nenhuma âncora era forte o suficiente para um menino com o coração batendo no ritmo das ruas. Minha fuga para o centro da cidade já estava em andamento.

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Gigantes com câmeras: onde cada clique é uma passagem para um novo mundo.

Eu me sentia o dono daquele pedaço de mundo aos pés da imponente Basílica de São Francisco. Suas esculturas barrocas sussurravam histórias sagradas para quem soubesse ouvir. Mas meus olhos não estavam nas pedras. Estavam fixos nos “gringos” (turistas) aqueles seres fascinantes, altos como gigantes, com botas que pareciam naves e mochilas que carregavam continentes inteiros. Seus olhos, verdes ou azuis como lagos distantes, me hipnotizavam.

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Então, com uma coragem que nascia do desejo mais puro, eu me lançava em seu caminho e soltava minha invocação mágica, meu inglês inventado: “Hi friend, one picture, please!”.

Não era um pedido. Era um convite para um pacto secreto. Eu não queria moedas ou doces. Queria algo infinitamente mais precioso: que suas câmeras analógicas, aquelas caixas de mistério, capturassem para sempre meu sorriso desafiador, meu casaco de capucha com seus desenhos, meu orgulho silencioso de ser boliviano. Queria que levassem minha imagem, minha existência, para países de neve eterna ou cidades de arranha-céus que povoavam meus sonhos mais ousados. Minha mãe me alertava sobre os perigos dos estranhos, mas meus ouvidos estavam surdos para tudo, exceto para o clique da câmera.

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O clique, aquele som era o ruído de um portal se abrindo. Era a prova de que um menino boliviano poderia, de alguma forma mágica e definitiva, viajar com eles. Minha alma, minha essência, congelada num fragmento de luz e prata, seria levada para o mundo. Em cada fotografia, eu começava uma jornada sem fim.

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O que valia não eram as palavras, mas o entendimento mútuo. De um lado, a alegria de capturar a cena. Do outro, a quieta satisfação de um menino que, sem sair do lugar, viajava para outros países através de seu próprio retrato.

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Trinta anos se passaram. O menino da “Plaza San Francisco” cresceu e, no fim dos anos 90, eis-me no coração de São Paulo, na Praça da República. O choque foi imediato. Um artesão de rua me chamou de “gringo”. Eu? Gringo? Mas os gringos eram loiros, altos, eles é que tinham que me fotografar! Na “pauliceia”, descobri, a geografia do estrangeiro é outra. Agora, era eu o forasteiro, o portador de um sotaque e de feições que contavam outra história. Aquele epíteto, que no primeiro momento soou estranho, logo se revelou um convite. Cheguei munido de sonhos, da vontade férrea de ser o melhor naquilo que me propusesse, vendedor, empreendedor, talvez até um artista de rua.

Foi ouvindo o som nostálgico das “zampoñas, quenas e bombos” (instrumentos andinos) de grupos bolivianos como os de Goyo, Cecilio e Marcos, que meu coração encontrou um ritmo familiar em meio ao caos urbano. Eles, com seus cabelos longos e exigência artística, eram a trilha sonora da minha saudade. A multidão paulistana batia palmas, encantada com aquelas melodias andinas, mas eu sentia que aquela era apenas uma fração, uma pista, de tudo que a Bolívia tinha a oferecer.

A vida me levou para a multimídia, um universo que abracei com a criatividade inerente à minha raiz andina e amazônica. Descobri que ser “gringo”, no sentido de ser diferente, de ter uma perspectiva única, era uma vantagem imensa no maior mercado editorial da América Latina. Minhas artes coloridas, ganharam espaço numa produtora de multimídia era a “Tecno Quality” produtora que valorizou minhas narrativas visuais que traziam o DNA de milhares de anos de história, faziam a diferença. Do CD-ROM ao DVD, e finalmente à Internet, fui um contador de histórias interativas, assim como na infância, quando pedia para ser fotografado. A mesma essência: querer conectar, mostrar, compartilhar histórias.

Mas uma inquietação crescia em mim. Incomodava-me, até me enfurecia, a narrativa reducionista e negativa que a grande mídia brasileira atribuía à minha terra natal. A Bolívia era constantemente associada e relacionada na “narcocultura” a estereótipos de pobreza que não honravam sua gente, sua história, sua cultura. Percebi que a raiz do problema era a simples falta de informação. E foi dessa carência que nasceu, como uma missão quase homérica, o Bolívia Cultural.

Não foi fácil. A internet dos primórdios era um campo desleal, com GIFs coloridos e informações rasas. A imagem da Bolívia parecia condenada à subserviência. Até que a história deu uma guinada. A ascensão de Evo Morales mostrou ao mundo uma Bolívia digna, orgulhosa de sua origem indígena “Aymara, Quechua, Guarani”. Foi como um vento favorável nas velas do meu projeto. O Bolívia Cultural decolou. Finalmente, ser boliviano não era mais ser invisível. Era um ato de orgulho. Brasileiros começaram a me parabenizar pela luta dos meus antepassados indígenas. Aquele menino da praça San Francisco, cuja foto viajava no filme de um estrangeiro, agora via sua cultura viajar pela fibra ótica de todo um planeta.

Nessa jornada, quatro anjos me mostraram o verdadeiro sentido da vida e deram um norte ao meu “sucesso obrigatório”: minhas filhas, Bruna, Gabriela, Camila e Grazielli. Elas carregam meu DNA milenar em suas veias e a energia alegre brasileira em seus sorrisos. São minha eternidade. Através delas, aprendi a sofrer e me alegrar pelo Brasil com uma intensidade que nem sabia ser possível. Elas me ensinaram que a Plaza San Francisco, em La Paz, e a Praça da República, em São Paulo, são feitas da mesma matéria: a pedra sólida dos sonhos de crianças. Foi com elas, em um dia no Memorial da América Latina, vendo um grupo da “morenada” (dança boliviana), que ouvi a pergunta que coroou minha missão: “Olha, papai, que lindo! São todos bolivianos? Você tem orgulho? Porque a gente tem muito orgulho!”. Naquele instante, as pessoas mais importantes entre 200 milhões de brasileiros haviam sido conquistadas pelo amor da minha cultura. Missão cumprida pensei.

Em muitos momentos, vejo aquele menino da Plaza San Francisco do lado das minhas filhas. Ele nunca se foi. Continua aqui, dentro de mim, capetinha, inquieto, sarcástico, curioso e, acima de tudo, orgulhoso. Ele sussurra em meu ouvido: “Viu só? As fotos com os gringos deram certo. Estamos aqui, longe de casa, mas somos amados. Somos o centro da foto agora, na grande angular da vida”.

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À frente do Bolívia Cultural, Antonio Andrade lidera a criação do maior ecossistema digital de promoção da Bolívia em português. O projeto disponibiliza um dos mais extensos bancos de imagens (123.800 fotos) sobre a migração boliviana, com acesso gratuito e em tempo real.

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Neste ano, quando a Bolívia celebra seus 200 anos de independência, olho para trás e para o lado. Meu país faz 200 anos. Quase os 200 milhões de “ajayus” (almas) brasileiras que um dia sonhei em conquistar com a verdade de uma Bolívia única. São 200 anos bordados com a linha dourada da resistência e da alegria de uma comunidade que fincou raízes profundas nesta São Paulo cinza e de concreto que aprendi a chamar de lar.

Esta história não é só minha. É tecida por muitas mãos. Pela Dona Panchita, que nas suas malas trouxe não apenas roupas, mas o “Ekeko” (Deus andino da abundância), enrolado em um “aguayo” (tecido andino colorido) de esperanças. Foi ela que, com sua inquietude, inaugurou a “festa das Alasitas” no Brasil, uma celebração da abundância que, todo 24 de janeiro, transforma a chuva torrencial de São Paulo em uma bênção que lava as ruas para a festa de São Paulo do dia seguinte.

É a história de Dona Bertha, natural da “Sorata – La Paz – Bolívia”, miudinha e determinada, que no bairro do Pari apresentou aos paulistanos os sabores inconfundíveis dos “anticuchos”. Ela mostrou que ser empreendedora era possível e plantou a semente do que se tornaria a Feira Kantuta, um pedaço da Bolívia no coração de São Paulo.

Uma das influências mais marcantes e emotivas em minha vida foi, e sempre será, a Sra. Cristina, a quem carinhosamente chamo de Mãe. Foi com ela que aprendi algo profundo: mais do que centenas de tapinhas nas costas que a vida às vezes nos dá, vale infinitamente mais uma voz ao mesmo tempo crítica e reconfortante. Um simples “Bom trabalho, meu filho!” vindo dela era mais do que um prêmio, era uma honra. Saber que uma “Potosina de Toro Toro” tão exigente e querida estava orgulhosa do meu trabalho fazia toda a diferença. Com uma única frase, ela conseguia me incentivar, me desafiar, lapidando meu caminho criativo na produção e formação de opinião da cultura boliviana da “Cidade Dos Mil Povos” para o mundo.

E é a história de Don Alberto, o mestre fotógrafo, visionário de olhar inquieto por trás das lentes, sempre mal-humorado mas de uma sabedoria ácida que cortava direto ao cerne da verdade. Em dias difíceis, entre umas “salteñas”, ele fixava em mim seus olhos cansados que haviam visto décadas de história e dizia, com a voz grave de quem prevê tempestades: “Se a Bolívia continuar por este caminho, nossa economia vai para o saco, rapaz. Estamos descuidando nossa economia polarizando nosso povo boliviano.” Suas palavras eram um alerta solene, um lamento profético que me inquietava a alma. Mesmo em sua preocupação constante, nesse pessimismo que escondia um amor ferido pelo país, Don Alberto me ensinava a importância dos raros momentos em que a luz vencia sua austeridade, lembro quando eu conseguia arrancar um sorriso daquele homem sério, bastava eu baixar a cabeça com genuíno respeito e chamá-lo de “Mestre”. Era um título que ele carregava não por vaidade, mas por direito de quem havia eternizado a alma boliviana em milhares de frames silenciosos.

Esses quatro pilares da nossa comunidade já se foram, mas seu legado é a própria coluna vertebral desta narrativa de sucesso. Eles me ensinaram que aquele menino que pedia fotos não buscava apenas ser visto, mas sim criar pontes entre histórias de pessoas de famílias de emoções.

Hoje, 200 anos depois, a Bolívia não é mais apenas um país distante no mapa da América do Sul. É o aroma de “salteñas” que escapa de uma padaria em Cochabamba, é o som de uma “zampoña” na Praça da República, é o colorido das “polleras” na Festa da Virgem de Copacabana, é o “Ekeko” que traz prosperidade em uma prateleira de uma casa em São Paulo. É o sangue andino que corre nas veias de minhas filhas brasileiras.

E o menino da Plaza San Francisco finalmente compreendeu. As fotografias nunca se perderam na poeira do esquecimento. Elas germinaram. Multiplicaram-se em pixels e em afeto, transformaram-se em vídeos que correm o mundo, em posts que derrubam fronteiras, em reportagens que dignificam, em feiras que exalam o cheiro de lar, em sorrisos de compreensão que desfazem preconceitos.

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O menino das fotos nunca me deixou. Seu espírito arteiro, agitado e inquieto ainda sussurra: “Olha só até onde chegamos.”

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A imagem daquele Menino das Fotos, congelada no tempo por um clique estrangeiro, agora funde-se de forma épica com o grito de duzentas crianças em uma escola paulistana que, em coro uníssono e puro, erguem a voz: EU AMO BOLÍVIA!. É o mesmo grito. O mesmo sorriso. A mesma alma inquieta. O menino que outrora pedia para ser visto agora é admirado por milhões. O que era um sussurro solitário no ar rarefeito do “Altipiano Andino” transformou-se em um canto forte e coletivo que percorrem pelas escolas e avenidas de São Paulo.

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O menino que fui nunca partiu. Ele habita meus passos, ajuda-me a conquistar corações e a enfrentar as tristezas. E seguiremos caminhando juntos, até que o caminho tenha fim.

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A Bolívia, minha Bolívia amada, resiliente e gloriosa, encontrou finalmente seu refúgio, seu lugar de honra, no coração pulsante do Brasil. E eu, o menino que carregava uma nação inteira no sorriso, após três décadas de uma jornada constante entre saudades, lutas e triunfos suaves, encontrei algo que nem mesmo sabia estar procurando: encontrei meu lar.

E assim, sob o céu cinza de São Paulo, que hoje consigo colorir com as cores da minha história, a cena revela-se com clareza: o menino de La Paz, de mãos dadas com o homem de São Paulo. Eles se olham e se reconhecem. Não há fim, não há distância. Há apenas o desabrochar eterno de uma história que, depois de 200 anos, mal começou a ser contada. E a única coisa que consigo sentir, transbordando pela pele, é uma gratidão tão vasta e profunda que só pode ser expressa por um sorriso largo e silencioso, entre lágrimas contidas de missão cumprida e amor realizado por uma Bolívia que vive eternamente em meu peito.

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A Praça San Francisco, hoje mais ampla mas não menos movimentada, segue atraindo turistas do mundo inteiro. Ávidos por fotografia, eles capturam com suas câmeras, agora digitais, os detalhes da bela arquitetura do centro de La Paz. (Foto: Angela Calderón).

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Obrigado por ter chegado até aqui. Esta história reflete um pouco da enorme satisfação que tenho em lidar com este “Menino das Fotos”, que dia a dia me motiva a criar atividades e pautas nas escolas de São Paulo.
Se você se identificou, que tal dialogar um pouco mais com essa criança que tenta falar com você todos os dias? Escute-a. Tenho certeza de que, a partir desse olhar, muitos projetos podem nascer e ajudar a transformar o nosso mundo.
Antonio Andrade Vargas
CEO da Bolívia Cultural & Planeta América Latina.
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