Em Marcha por Direitos, Bolivianos são 9 em Cada 10 Manifestantes na Paulista

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17ª Marcha dos Imigrantes e Refugiados teve tom plurinacional e destacou a força das mulheres na luta por políticas públicas dos imigrantes

São Paulo • 14/12/25 às 23:11h
Atualizado • 16/12/25 às 00:38
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Sob uma tarde de garoa e sol que se revezavam na Avenida Paulista, o grito por “cidadania plena” e “aqui vivo, aqui voto” repercutiu entre os prédios paulistanos no último domingo (14/12/2025), carregado de um sotaque predominantemente boliviano. A 17ª Marcha dos Imigrantes e Refugiados, que partiu do MASP, teve cerca de 90% de seus participantes composta por imigrantes da Bolívia, um protagonismo massivo que tingiu a via com as cores vermelha, amarela e verde da bandeira nacional, emolduradas pelo símbolo da Wiphala, símbolo da união dos povos originários andinos.

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Apesar da ampla maioria boliviana, a marcha preservou sua essência plural, reunindo bandeiras e rostos de diversas nacionalidades, como Nigéria, Peru, Haiti, Síria, Brasil, Venezuela, Argentina, Colômbia, Cuba, Uruguai, Chile, Afeganistão, Palestina e República do Congo entre outras.

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O ritmo pulsante veio das danças tradicionais da Bolívia: o “Tinku”, apresentado pela Fraternidad Tinkus Bolivia Wayna Lisos, e o “Salay”, executado pela Fraternidade Salay Tiraque, que embalaram energeticamente os passos dos manifestantes.

Esta foi a primeira edição organizada fora do comando do Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), mas a mobilização comunitária, capitaneada por ativistas de várias nacionalidades, com destaque expressivo para o apoio das lideranças aimaras e quechuas da comunidade boliviana, garantiu um evento vibrante e reivindicatório.

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A 17ª Marcha dos Imigrantes, teve a presença emblemática do deputado estadual Eduardo Suplicy, participante habitual do ato. Confirmando sua histórica solidariedade, o parlamentar ressaltou a importância do acolhimento: “É importante que todos nós sejamos solidários com os imigrantes, por isso estou aqui”. Durante a caminhada, Suplicy expressou seu repúdio aos conflitos armados no mundo e, para simbolizar o apelo pela paz, convocou os manifestantes a entoar em coro o clássico de Bob Dylan “Blowin’ In The Wind”, música que, lembrou, historicamente foi cantada por povos em busca do fim das guerras. (Foto: Bolívia Cultural)

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O Clamor e a Força das Mulheres por Políticas Públicas

Se o direito ao voto predominou como o mantra unificador, um grito mais específico e urgente ganhou força no coro das mulheres: a exigência por políticas públicas voltadas para as famílias imigrantes. Elas estiveram na linha de frente para denunciar a dupla, quando não tripla, jornada de trabalho, as barreiras de acesso à saúde, à educação e a creches para os filhos, e a vulnerabilidade social acentuada pela condição migratória. Uma vulnerabilidade que, em seus casos mais extremos e trágicos, as coloca também na estatística dos feminicídios.

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“Nós, mulheres, somos a coluna das nossas famílias e das nossas comunidades aqui no Brasil. Lutamos por trabalho e documentos, mas também por creches, por saúde que entenda nossa cultura, por um olhar do Estado que nos veja como famílias que estão construindo uma vida aqui, não apenas como mão de obra”, afirmou a imigrante boliviana, Yolanda, liderança da AMILV – Associação de Mulheres Imigrantes Luz e Vida.

A pauta evidencia uma maturidade do movimento, que avança da reivindicação por direitos individuais básicos para exigir políticas de Estado integradas que considerem o núcleo familiar e, em especial, as mulheres imigrantes como sujeitos de direitos. A presença marcante da comunidade boliviana, com sua forte estrutura comunitária e associativa, deu peso concreto a essa demanda.

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Parte dos organizadores da 17ª Marcha dos Imigrantes e Refugiados, Constance Salawe (nigeriana-camaronesa), Alex Vargem (Brasil) e Patrícia Prudencio (Bolívia), celebraram a edição como uma conquista construída coletivamente pelos próprios imigrantes. Eles ressaltaram que o ato trouxe para a Av. Paulista o protagonismo direto de quem luta por direitos plenos, uma afirmação contundente de que, na defesa da dignidade, “nenhum a menos”. (Foto: Bolívia Cultural).

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A marcha terminou por volta das 16h, em frente a Praça do Ciclista, mas a energia de exigência por uma sociedade mais justa e inclusiva impregnou a Paulista. O evento deixou claro que os imigrantes, especialmente com a força mobilizadora das mulheres bolivianas, não buscam apenas integração, mas protagonismo na construção de um Brasil que reconheça, na prática, seu direito a uma cidadania plena e a políticas que acolham suas famílias.

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MANIFESTO DA 17ª MARCHA DOS IMIGRANTES, REFUGIADOS, APÁTRIDAS E RETORNADOS

Migrar é um direito humano!

Somos pessoas em situação de migração: imigrantes. solicitantes de refúgio. refugiadas. apátridas e retornados, residentes na cidade de São Paulo e presentes cim todo o Brasil.

Provimos de todos os continentes — África, Ásia, América. Europa e Oceania — carregamos uma diversidade de culturas, raças, etnias, religiões, géneros e identidades sexuais. Contribuímos com variadas experiências, profissões, filosofias, cosmovisões e saberes, movidos pelo desejo de dar continuidade às nossas vidas e construir um mundo melhor do que aquele que fomos forçados a deixar por crises económicas, crises climáticas conflitos políticos, guerras, perseguições ou violações de direitos humanos.

Para o que e por que marchamos?

Para assegurar °Artigo 13 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que desde 1948 resguarda o direito humano de migrar e circular livremente pelas ruas do pais em que residimos.

Para denunciar o atual cenário mundial de instabilidade e a violação sistemática dos Direitos Humanos da População Migrante.

Para combater o recrudescimento das iniquidades sociais e deslocamentos forçados devido a guerras, conflitos armados e desastres socioambientais em países como Afeganistão. Armênia, Burkina Fuso, Haiti, Mali, Níger, Palestina, República Democrática do Congo, Síria, Sudão, Ucrânia, Venezuela, e muitos outros!

Para denunciar as políticas anti-imigração da extrema direita no mundo: Desde os países do norte global, com as agressivas deportações de Donald Trump nos Estados Unidos: Na América Latina e Caribenha, como as prisões ilegais do Presidente de El Salvador, Nayib Bukele: E até na tentativa de implementar esta politica anti-imigração no Brasil por Topázio Neto, Prefeito de Florianópolis.

Para que a sociedade e governantes conheçam nossa realidade, desde nossa própria voz.

Para exigir que nossos direitos por justiça, saúde, educação, moradia e emprego digno se encontrem claramente escritos nas diretivas orgânicas do Estado Brasileiro e não dependam da boa vontade dos gestores de plantão.

Para lembrar que aguardamos a elaboração e promulgação do I Plano Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia. concretizando estratégias de ação da Política Nacional (PNMRA), para avanços reais, não paralisia, nem retrocessos.

Para exigir que a elaboração e implementação de leis e políticas públicas para nós não se faça sem nós, pois nossas experiências, ideais e conhecimentos são imprescindíveis.

Para denunciar o assédio moral e sexual, racismo, a homofobia, xenofobia, discriminação e violências que sofremos no mundo do trabalho, na educação, na saúde e na moradia.

Para denunciar o racismo sistêmico aos corpos de imigrantes, refugiados e apátridas. atravessados pelas marcas históricas brasileiras contra as populações negras e indígenas.

Para denunciar que a escola. espaço fundamental de socialização. torna-se para muitos alunos migrantes lugar das mais dolorosas experiências de “bulling”, preconceito, racismo e xenofobia.

Para mostrar que barreiras linguísticas. burocracia documental e despreparc dos profissionais são formas de impedimento à garantia de direitos da Constituição de 1988.

Pelo respaldo das leis brasileiras contra a LGBTQIA.+ fobia aos migrantes que fugiram de governos que os perseguiam por sua orientação sexual ou identidade de género, porque trabalhamos e contribuímos por um Brasil sem discriminação.

Para denunciar aos lobbies negacionistas que rejeitam as evidencias cientificas do aquecimento global por interesses económicos, obstaculizando as ações políticas de proteção à Vida.

Pelos nossos que saíram de seus países em busca de Democracia, uma luta permanente e internacional, nossa solidariedade e uma voz de esperança, fundamental e necessária com todos os povos que sofrem o apagamento da sua voz.

Para destacar o importante papel das organizações sociais e de imigrantes na luta pela garantia de direitos, acolhimento e informação.

Para dizer que OUTRO MODO DE VIVER É POSSÍVEL! BASTA DE CONSUMISMO! BASTA DE COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS! BASTA DE POLUIR NOSSO AR! BASTA DE POLUIR NOSSOS RIOS!

Para dizer QUEREMOS USUFRUIR UMA VIDA CONCRETA COM PLENOS DIREITOS!

 

Fotos: Bolívia Cultural

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