No Dia Internacional da Língua Materna, imigrantes bolivianos celebram a perpetuação de suas raízes em terras brasileiras

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No Dia Internacional da Língua Materna, comunidades bolivianas em São Paulo celebram o direito de falar e existir em aimara, quéchua, chiquitano e warao, etnias que o Censo 2022 finalmente reconheceu estarem vivas no Brasil.

São Paulo 23/02/26 às 17:31h
Atualizado em 11/03/26 às 14:31h

No coração da maior metrópole da América do Sul, onde o português domina as ruas e os letreiros, outras línguas teimam em sobreviver, e florescer. São vozes que vêm dos Andes, carregadas de séculos de história, e que hoje ecoam em feiras, praças, festivais e lares da comunidade boliviana no Brasil. No Dia Internacional da Língua Materna, celebrado em 21 de fevereiro, essa resistência ganha contornos ainda mais simbólicos: falar aimara, quéchua, chiquitano ou warao em território brasileiro não é apenas um ato de comunicação, mas um gesto político de preservação cultural.

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Criada pela UNESCO em 1999 e observada globalmente desde o ano 2000, a data é um lembrete de que, a cada duas semanas, uma língua desaparece no mundo, levando consigo um patrimônio imaterial irrecuperável. Atualmente, 40% da população mundial não tem acesso à educação em seu próprio idioma, o que aprofunda desigualdades e apaga saberes ancestrais. No Brasil, porém, a comunidade boliviana tem dado uma resposta à altura desse desafio: ao ensinar suas línguas às novas gerações, ao cantar em quéchua nas festas tradicionais e ao organizar celebrações como o Ano Novo Andino na emblemática Praça Kantuta, em São Paulo, esses imigrantes garantem que suas culturas não apenas sobrevivam, mas se reinventem longe de suas terras natais.

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O esforço coletivo dessas comunidades encontrou um eco institucional inédito no Censo Demográfico de 2022. Pela primeira vez na história, o IBGE registrou oficialmente a presença de línguas como aimara, quéchua, chiquitano e warao entre as 295 faladas no país. O reconhecimento, no entanto, não foi automático: ele é fruto de uma articulação de anos protagonizada por coletivos e organizações como o Centro Cultural Andino Amazônico (CCAA), as Cholitas da Babilônia, Coletivo Sí Yo Puedo, a Equipe de Base Warmis, o BoliviaCultural, o Ayni, os grupos de dança Vientos del Ande, Huaycheños de Corazón, Raza India, Jach’a Sicuris de Italaque, Kollasuyo Maya, Kantati Uruni, Waly Wayras, Suma Waynas, além de lideranças como Jilata Martin, Xamã Inti Román, e o território simbólico do Apu Andino na Praça Kantuta. Essas entidades e ativistas mobilizaram famílias para que se reconhecessem não apenas como bolivianas, mas como pertencentes a povos originários específicos, um ato de autorreconhecimento que transformou dados estatísticos em afirmação de identidade.

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RAÍZES BOLIVIANAS: Minha Primeira Cartilha em Português, Espanhol, Aimará e Quéchua.

Em virtude da colaboração com profissionais bolivianos na produção do material, a data de lançamento da cartilha foi ajustada para maio de 2026:
o projeto Bolívia Cultural, em parceria com a RTP Bolívia, lançará quatro cartilhas pedagógicas digitais para levar as línguas aimará, quéchua e espanhol às escolas públicas do estado de São Paulo, como parte da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032) da UNESCO. Elaborado por Grupos de Trabalho formados por imigrantes indígenas, o material será distribuído gratuitamente nos formatos impresso e digital, e integrará as palestras da Campanha Eu Amo Bolívia ao longo de todo o ano. Com atividades em português que convidam ao aprendizado de frases e vocabulário em espanhol, aimará e quéchua, a cartilha tem como público crianças filhas de imigrantes bolivianos, estudantes brasileiros e professores, promovendo o reconhecimento da diversidade linguística e o fortalecimento da identidade cultural. Para o diretor do Bolívia Cultural, Antonio Andrade, a iniciativa é uma forma de reparar o apagamento histórico provocado pela colonização, já que “a língua tradicional é o meio mais profundo para expressar cosmologia, sentimento e religiosidade”. Já Monica Medina, presidente da RTP Bolívia, destaca que o projeto é “um marco para os povos originários” por ser feito por eles próprios, gerando visibilidade e políticas públicas para a acessibilidade linguística como direito social.

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“A língua é a alma de um povo”, lembra a diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, em mensagem sobre o Dia Internacional da Língua Materna. “Ela não é apenas um instrumento de comunicação, mas o veículo dos saberes, das tradições e da memória coletiva. Quando uma língua morre, é um pedaço da humanidade que se apaga.” Por isso, a edição de 2026 da celebração convoca os jovens a se tornarem protagonistas na transmissão linguística, reconhecendo que o futuro do multilinguismo depende do engajamento das novas gerações.

Em São Paulo, esse protagonismo já é realidade. Crianças que crescem ouvindo aimara em casa, jovens que dançam em festivais vestidos com trajes típicos e adultos que organizam rodas de conversa em quéchua estão, dia após dia, escrevendo um novo capítulo da história latino-americana no Brasil. Mais do que números, eles representam a certeza de que a diversidade linguística é um pilar para a paz, a dignidade e a inclusão, e que, no grande relato da humanidade, não deve faltar nenhuma voz.

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