São Paulo: a comunidade boliviana entra no mapa político do Brasil

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O sete de setembro de 2026 não foi apenas uma jornada para recordar a independência do Brasil.

São Paulo, 10/09/26 às 15:53h
Atualizado, 10/09/26 às 16:08h
Por María Anelin Suárez – Analista política

O 7 de setembro de 2026 não foi apenas uma jornada para recordar a independência do Brasil. Na Avenida Paulista, coração político e social de São Paulo, a celebração dos 204 anos de independência se transformou também em uma fotografia do Brasil que se prepara para uma das eleições mais disputadas dos últimos anos.

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Milhares de pessoas acompanharam a mobilização encabeçada por Flávio Bolsonaro e pelo Partido Liberal, em um ato que combinou patriotismo, campanha eleitoral e fortes questionamentos ao Supremo Tribunal Federal e ao ministro Alexandre de Moraes. A medição realizada por pesquisadores da USP e do Cebrap estimou uma assistência de aproximadamente 28.500 pessoas.

 

Candidatos ao Senado e ao governo de SP participaram do evento de 7 de Setembro; Bolívia Cultural ouviu André do Prado, João Jorge, Marcos Pontes, Renato Bolsonaro e Sergio Moro. (Foto – Bolívia Cultural).

 

Mas, sob o olhar do Bolivia Cultural, há algo que merece ainda mais atenção: em meio a essa disputa pelo poder, a comunidade boliviana foi ouvida. E isso tem uma enorme importância política.

 

Não apenas votos: ouvir uma comunidade

São Paulo é uma das grandes capitais econômicas e sociais da América Latina. Em suas ruas, convivem brasileiros e comunidades provenientes de praticamente todo o continente. Entre elas, está a comunidade boliviana.

Uma comunidade que trabalha, empreende, produz, gera movimento econômico, constrói famílias e faz parte da vida cotidiana paulista. Mas também uma comunidade que enfrenta problemas concretos: segurança, trabalho, empreendedorismo, integração, acesso a oportunidades e proteção social.

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Por isso, é significativo que, em plena campanha eleitoral, diferentes dirigentes e candidatos tenham demonstrado interesse em ouvir diretamente essas preocupações. Durante nossa cobertura para a Bolivia Cultural, pudemos comprovar essa receptividade e recolher palavras de proximidade com nossos compatriotas.

E aqui surge uma pergunta que considero fundamental: estamos diante de uma simples estratégia eleitoral ou da possibilidade de construir uma verdadeira representação política da comunidade boliviana?

 

Samantha Salerno e a possibilidade de uma voz na Assembleia Legislativa

Dentro desse cenário, adquire especial relevância Samanta Salerno de Almeida, candidata a deputada estadual por São Paulo. No âmbito político, ficou conhecida como “Samanta Bolsonaro”, embora o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo recentemente tenha determinado que ela não pode utilizar essa expressão como nome de urna, devido ao fato de não existir vínculo familiar com a família Bolsonaro e de isso poder gerar confusão entre os eleitores.

Além dessa controvérsia eleitoral, o que interessa sob nossa perspectiva é seu discurso dirigido à comunidade boliviana. Salerno tem enfatizado duas questões que nossos compatriotas consideram fundamentais: segurança e oportunidades econômicas.

E aqui encontramos um ponto de enorme importância. A segurança não é apenas uma estatística policial. Para uma família boliviana, significa poder sair para trabalhar sem medo. Significa proteger um negócio. Significa que nossos filhos possam caminhar pelas ruas. Significa ter a tranquilidade mínima para construir um projeto de vida.

E o desenvolvimento econômico tampouco significa simplesmente falar de capitalismo como uma teoria. Para o migrante, pode significar algo muito mais concreto: a possibilidade de empreender, trabalhar, gerar renda e deixar de depender de estruturas assistenciais para construir seu próprio futuro.

Se Salerno conseguir chegar à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, poderá existir uma oportunidade para que essas demandas tenham uma interlocução institucional mais direta.

 

A ponte política

E aqui está, talvez, a parte mais interessante desta análise: uma eventual representação da comunidade boliviana dentro da Assembleia Legislativa paulista poderia se tornar uma ponte para outros níveis de poder, deputados estaduais, deputados federais, senadores, dirigentes do Partido Liberal e, dependendo de como avançar a eleição presidencial, para o próprio espaço político de Flávio Bolsonaro.

Não estamos dizendo que o resultado eleitoral esteja definido. Muito pelo contrário: a corrida presidencial está extremamente aberta. A pesquisa Quaest divulgada em 7 de setembro mostrou um empate de 41% entre Lula e Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, enquanto o sondeo BTG/Nexus publicado em 8 de setembro registrou 46% para Flávio e 45% para Lula. Ou seja, estamos diante de uma disputa competitiva e ainda aberta.

Precisamente por isso, a aproximação com as comunidades pode adquirir maior importância.

 

Flávio Bolsonaro e uma direita que busca ampliar sua interlocução

Flávio Bolsonaro foi o protagonista central da mobilização paulista. O ato mostrou que o bolsonarismo continua tendo capacidade de mobilização e que a crise em torno do Supremo Tribunal Federal se tornou um dos principais eixos do debate eleitoral.

Mas existe outro elemento que merece ser observado sob a ótica da comunidade boliviana. Em nossa cobertura, pudemos recolher também as palavras e a aproximação de Renato Bolsonaro, assim como de outras figuras políticas presentes nessa jornada, entre elas Pontes, além de dirigentes e candidatos vinculados ao espaço do PL.

Além dos nomes e das candidaturas, a mensagem política que fica é importante: a comunidade boliviana está começando a ser reconhecida como um interlocutor. E um interlocutor não é simplesmente alguém que recebe promessas. É alguém que pode sentar-se à mesa, apresentar problemas e exigir respostas.

 

De espectadores a atores políticos

Aqui creio que está o verdadeiro ensinamento para nós, bolivianos. Durante muitos anos, as comunidades migrantes foram observadas fundamentalmente como grupos que precisam de assistência. Mas existe outra maneira de olhar a migração: como força produtiva, como comunidade organizada, como empreendedores, como trabalhadores, como cidadãos que também podem participar da construção política da sociedade onde vivem.

São Paulo pode se tornar um exemplo disso. E o Brasil, por sua dimensão continental, pode mostrar ao resto da América Latina como as políticas de segurança, integração, empreendedorismo e desenvolvimento econômico podem ser discutidas sob uma perspectiva muito mais ampla.

 

Uma oportunidade que também gera responsabilidades

Mas a responsabilidade não está apenas nos candidatos. Também está em nós.

Se queremos que os políticos nos ouçam, temos que aprender a apresentar nossas demandas de maneira organizada. Se queremos segurança, devemos ser capazes de explicar onde estão os problemas e quais soluções propomos. Se queremos oportunidades econômicas, devemos mostrar quanto contribuem nossos comerciantes, trabalhadores e empreendedores. Se queremos integração, devemos participar.

Porque a política não começa no dia das eleições. A política começa quando uma comunidade descobre que tem voz.

 

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Foto – joaojorgesp

O sete de setembro deixou um sinal

Por isso, além das bandeiras, dos discursos e da enorme polarização que atualmente atravessa o Brasil, o 7 de setembro deixou um sinal que, para a comunidade boliviana, merece ser observado com atenção.

Flávio Bolsonaro como protagonista nacional. Dirigentes e candidatos do PL buscando fortalecer seus espaços políticos. Figuras como Renato Bolsonaro e Pontes se aproximando da comunidade. E uma candidata como Samanta Salerno colocando sobre a mesa temas que afetam diretamente nossos compatriotas: segurança, trabalho, empreendedorismo e desenvolvimento econômico.

O resultado eleitoral ainda está por ser escrito. Mas algo já está ocorrendo: a comunidade boliviana está deixando de ser apenas espectadora da política brasileira. Está começando a ser ouvida.

E o próximo passo deveria ser ainda mais importante: converter essa escuta em representação, essa representação em políticas públicas e essas políticas públicas em melhores condições de vida para nossa comunidade. Porque, se São Paulo é um dos grandes motores da América Latina, os bolivianos que vivemos e trabalhamos aqui também somos parte desse motor. E chegou o momento de que nossa voz tenha um lugar à mesa onde se tomam as decisões.

 

Uma nova etapa pode começar

O resultado eleitoral ainda está por ser escrito. Mas há algo que já podemos reconhecer: a comunidade boliviana está sendo olhada, ouvida e levada em conta. E isso abre uma porta.

Uma porta para que nossos problemas de segurança tenham uma voz, para que nossos empreendedores encontrem maiores oportunidades, para que nossos trabalhadores sejam reconhecidos e para que nossos filhos possam crescer sentindo-se parte de uma sociedade que também é seu lar.

Talvez seja esse o verdadeiro ensinamento deste 7 de setembro. O Brasil celebrou sua independência, mas, para nós, também foi uma jornada que nos permitiu olhar para frente com esperança. Porque, quando uma comunidade se organiza, participa e encontra dirigentes dispostos a ouvi-la, o futuro começa a se construir de outra maneira.

Hoje podemos dizer que os bolivianos em São Paulo não estamos sozinhos. Temos uma história, temos capacidade de trabalho, temos cultura, temos sonhos e, sobretudo, temos uma comunidade que quer avançar.

E, se conseguirmos transformar esses sonhos em participação, diálogo e representação, poderemos construir pontes cada vez mais fortes entre Bolívia e Brasil.

Que este seja apenas o começo. Que nossos compatriotas possam viver com maior segurança, trabalhar com dignidade, empreender com liberdade e olhar o futuro com a certeza de que suas vozes também contam.

Porque São Paulo nos abriu suas portas. Agora, nós temos a oportunidade de abrir novas portas para nossa comunidade. E, talvez, dentro de alguns anos, possamos olhar este 7 de setembro de 2026 e dizer: aqui começou uma nova etapa para os bolivianos no Brasil.

Uma etapa de participação, de oportunidades, de integração e de esperança. Um futuro onde a comunidade boliviana não seja apenas parte de São Paulo, mas também parte das decisões que constroem o São Paulo do amanhã.

Fotos de capa:
facebook.com/joaojorgesp
Bolívia Cultural

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