Apreensão de “Dinheiro da Sorte” na Fronteira com a Bolívia Põe Tradição Cultural em Rota de Colisão com a Lei

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Em São Paulo, prática de distribuir notas em miniatura em ritual de prosperidade é reconhecida e celebrada a quase três décadas, enquanto na fronteira é tratada como crime contra o sistema financeiro.

São Paulo 05/01/26 às 22:20h
Atualizado 05/01/26 às 23:40h

Na noite de sábado, 3 de janeiro, uma abordagem de rotina no Posto Esdras, na fronteira de Corumbá (MS) com a Bolívia, tomou um rumo inesperado. Agentes da Receita Federal e da Polícia Militar detiveram um taxista boliviano cujo veículo transportava milhares de cédulas falsas de real e dólar. Diante da flagrante violação da lei, que prevê pena de três a doze anos de reclusão para falsificação de moeda, o motorista apresentou uma justificativa que vai além do crime: tratava-se, segundo ele, de material para a festividade ancestral de Alasita, tradicional celebração da abundância celebrada em 24 de janeiro.

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Foto: divulgação/Receita Federal
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Foto: divulgação/Receita Federal

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O condutor explicou às autoridades que as notas, impressas em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, as notas seriam distribuídas em feiras populares de Corumbá. Seu destino final não seria a circulação fraudulenta, mas sim rituais de oferenda em honra ao Ekeko (Deus da Abundância), o deus andino da abundância, e à Pachamama (Mãe Terra). Segundo a tradição andina boliviana, essas miniaturas de dinheiro e outros bens do desejo são guardadas como símbolo de pedidos de prosperidade para o ano que começa.

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A apreensão, cujo volume era tão grande que a contagem exata foi adiada, estimada em milhões (moeda impressa), segue os rigores da lei brasileira. A Polícia Federal assumiu o caso, e o taxista responde por importação e posse de moeda falsa. “Embora as tradições culturais e religiosas devam ser respeitadas, nenhuma prática que envolva crimes contra a ordem econômica e financeira pode se sobrepor às leis brasileiras”, resumiu a nota oficial das autoridades de fronteira.

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A Outra Leitura: A Tradição Aceita e Celebrada em São Paulo

Enquanto na fronteira o caso é enquadrado como contrabando e crime financeiro, em São Paulo a mesma prática tem uma leitura completamente diferente. Realizada desde 1999 a festa da Alasita, 2014 o prefeito Fernando Haddad a incluiu no calendário oficial do município de São Paulo, consolidando-se como uma importante expressão da cultura da comunidade boliviana na cidade.

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A Festa da Alasita, celebrada pela comunidade boliviana em São Paulo desde 1999, ganhou status de patrimônio cultural oficial da cidade em 2014, por meio do então prefeito Fernando Haddad (PT). A inclusão no calendário municipal consolida a tradição das miniaturas e dos “billetitos” como parte da rica diversidade paulistana. (Fotos: Bolívia Cultural)

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Nos eventos da Alasita em São Paulo, os chamados “billetitos” (notas pequenas), notas em miniatura idênticas às apreendidas, na maioria das vezes são carimbadas com a marca “SEM VALOR LEGAL”, são amplamente comercializados e distribuídos na festa da abundância. Longe de serem vistos como falsificação, são entendidos pela população e pelas autoridades como objetos ritualísticos e artesanato tradicional.

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Presidente Lula da Silva foi parte da celebração de Alasita 2015 (foto: Bolívia Cultural)
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Rogério Sottili, ex-secretários municipais de Direitos Humanos, na Alasita 2015. (foto: Bolívia Cultural)

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A celebração da Alasita com a distribuição de miniaturas de notas de dinheiro, já recebeu a visita e o reconhecimento público de diversas autoridades de alto escalão. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ex-prefeitos como Bruno Covas e Fernando Haddad, e ex-secretários municipais de Direitos Humanos como Rogério Sottili, Ana Carletto, Eduardo Suplicy e Soninha Francine estiveram presentes nas feiras, prestigiando a cultura boliviana e interagindo com a simbologia das miniaturas. Para os paulistanos que frequentam a festa, os billetitos” são elementos lúdicos e sagrados de uma tradição que pede sorte e abundância, não uma ameaça à economia.

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O episódio na fronteira evidencia, portanto, um choque entre a aplicação estrita da lei e o reconhecimento de práticas culturais consolidadas. Levanta um debate complexo: como equilibrar a proteção do sistema financeiro nacional com a salvaguarda de expressões religiosas de comunidades tradicionais, especialmente quando essas expressões são já assimiladas e celebradas em grandes centros urbanos do próprio país? A resposta das autoridades federais ao caso do taxista boliviano pode definir um precedente sensível nesta delicada interseção entre lei, fronteira e fé.

Com informações de:
correiodecorumbapantanal

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