O adeus a David Santalla: Bolivia perde seu sorriso maior, que segue vivo na memória dos migrantes

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Comediante, ícone do teatro e cinema boliviano, morre aos 86 anos em Sucre. Seu legado, porém, transcende fronteiras e continua fazendo rir uma geração de bolivianos espalhada pelo mundo.

São Paulo • 22/02/26 às 01:41h

A Bolívia despediu-se neste sábado de seu sorriso mais querido. David Santalla, o mestre da comédia nacional, faleceu aos 86 anos no Instituto Chuquisaqueño de Oncologia (ICO), em Sucre, onde estava internado devido a complicações em seu estado de saúde. A notícia, confirmada por fontes hospitalares, acionou o protocolo “Código Lila”, que garante dignidade e acompanhamento no momento final, e mergulhou o país em profunda comoção.

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Com mais de seis décadas de carreira, David Santalla não foi apenas um ator; foi um espelho da sociedade boliviana. Nascido em La Paz, em 1939, construiu uma trajetória que se confunde com a própria história do entretenimento no país, atuando em mais de 50 obras teatrais e em produções cinematográficas marcantes como o clássico “Chuquiago”. Sua genialidade residia na capacidade de, através da sátira e da crítica social, retratar com sensibilidade e humor a alma do povo boliviano.

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Sua contribuição ao cinema boliviano, no entanto, teve um marco indelével em “Mi socio” (1982), longa-metragem dirigido por Paolo Agazzi que se tornou um verdadeiro divisor de águas na história cinematográfica do país. No filme, Santalla deu vida a Vito, um caminhoneiro que, ao lado de Brillo (interpretado por Gerardo Suárez), percorre as estradas bolivianas em uma jornada que transcende o asfalto para tocar a alma de uma nação. Com trilha sonora de Alberto Villalpando e a voz inconfundível de Gerardo Arias, a produção não apenas eternizou a parceria entre Santalla e Suárez nas estradas da Bolívia, mas também capturou com sensibilidade as múltiplas facetas de um país diverso, unido pelos laços humanos que florescem ao longo de suas rotas. A obra, até hoje reverenciada, consolidou ainda mais o lugar de Santalla como intérprete das complexidades e da riqueza cultural boliviana.

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Mas o legado de David Santalla atravessou as fronteiras da geografia e do tempo. Seu humor, profundamente enraizado no cotidiano e nos tipos populares da Bolívia, tornou-se um elo precioso para a diáspora boliviana. Em cidades como São Paulo, Buenos Aires, Madrid e Washington, onde comunidades de migrantes mantêm vivas suas tradições, os personagens criados por David, a pícara Salustiana, o ingênuo e cativante Toribio, e o rabugento Don Enredoncio, continuam a provocar gargalhadas saudosas.

Para muitos bolivianos que deixaram o país em busca de novas oportunidades, as gravações e os relatos das travessuras de Salustiana ou dos enredos de Don Enredoncio são mais do que entretenimento: são uma cápsula do tempo que os reconecta com suas raízes, com o cheiro da comida da avó e com as tardes em família diante da televisão. Uma geração inteira de migrantes, que carrega na memória as falas e os trejeitos de seus inúmeros personagens, encontrou no humor de Santalla um pedaço da Bolívia que se recusa a ficar para trás.

“Ainda lembro das tardes de domingo em Cochabamba, vendo o programa do Tío Cañaviri. Quando me mudei para a Argentina, conseguir um vídeo do David Santalla era como receber uma carta de casa. Ele era a nossa identidade, o nosso riso”, comenta, emocionada, a administradora María René Quiroga, que vive há 15 anos em São Paulo. Relatos como o seu se multiplicam nas redes sociais neste momento de luto, transformando a despedida em uma celebração coletiva e transnacional de seu legado.

Santalla, que nos últimos anos enfrentou com resiliência uma dura batalha contra problemas de saúde, nunca perdeu o humor e a fé. Deixa uma escola de comédia que inspirou gerações de artistas e uma obra que permanecerá viva.

Hoje, a Bolívia chora a perda do homem, mas a sua lenda, perpetuada pelo riso saudoso de seus migrantes e pela alegria contagiante de personagens como Salustiana e Toribio, segue firme, provando que a verdadeira arte não conhece fronteiras. Aplausos eternos, mestre.

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